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Um crítico insubordinado

inserido em 17/08/2012 às 20:00:00

 | Crédito por Poeta, crítico literário, tradutor, professor, Adolfo Casais Monteiro (Porto 1908 - São Paulo, 1972) - de quem acaba de sair uma oportuna coletânea de textos, organizada por Rui Moreira Leite - manteve-se a vida toda fiel ao lema da revista coimbrã Presença ("por uma literatura viva, contra a literatura livresca"), que ele codirigiu, ao lado de José Régio e João Gaspar Simões, entre 1931 e 1940. O "inimigo" é fácil de definir: o beletrismo, o estilo pelo estilo, para suprir a carência de verdadeiro talento. Já o seu contraponto, irredutível a definições, é antes um sentimento ou uma atitude de afirmação da vida "real", para além ou aquém do "artifício" estético literário. Veja também: Lima Barreto por ele mesmo Grande Sertão: Veredas, romance entre o arcaico e o moderno Corpo e alma do Renascimento Casais e seus companheiros confrontavam-se com a mediocridade da literatura livresca, ainda reinante nos anos 30, a qual era preciso denunciar e combater, e logo elegeram como guia a magnífica performance iconoclasta da geração que os precedera (Fernando Pessoa, Sá-Carneiro, Almada Negreiros), cujas propostas deviam ser alargadas e aprofundadas. Para Casais e o grupo reunido em torno de Presença um improviso qualquer nunca seria capaz de combater o caráter livresco da literatura dominante. Eles preconizaram, desde sempre, o mais extremo rigor, um nível máximo de exigência estética, a severa consciência de ofício, contra todo amadorismo autocomplacente. Foi essa a missão que Casais se impôs, na poesia, na crítica invariavelmente polêmica e nas traduções, sempre no intuito de valorizar o que houvesse de mais avançado na literatura moderna. O espírito combativo com que o fez custou-lhe caro. Começou por ser destituído do emprego de professor do ensino secundário, em Coimbra, e foi logo censurado, perseguido e mais de uma vez levado à prisão. Embora não se filiasse a nenhum partido, colocou-se desde o início como opositor do regime salazarista. Nos anos 40, transferiu-se para Lisboa, onde tentou sobreviver como escritor e tradutor (verteu para o português, entre outros, Balzac, Tolstoi, Baudelaire, Flaubert, Bergson) e seguiu publicando seus livros de poesia e crítica, mas sua situação pessoal foi-se tornando cada vez mais insustentável. Em 1954, aceitou o convite que recebera para participar, em São Paulo, de um encontro internacional de escritores, como parte das comemorações do 4.º Centenário da cidade, e aqui se fixou. Bem recebido pela comunidade das letras do País, graças sobretudo ao interesse antigo que nutria por poetas como Ribeiro Couto e Manuel Bandeira, de quem era admirador confesso, tornou-se colaborador regular do Suplemento Literário do Estado e outros órgãos de imprensa. Chegou a lecionar em mais de uma faculdade no Rio de Janeiro e em São Paulo e, depois de breve passagem por Salvador, estabeleceu-se para valer, em 1962, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, um dos embriões da futura Unesp - cuja editora agora o publica - como professor de literatura portuguesa. Aqui, deu prosseguimento à sua obra crítica e teórica, publicando livros como Estudos sobre a Poesia de Fernando Pessoa (1958), Clareza e Mistério da Crítica (1961), A Palavra Essencial (1965) e outros. A presente antologia reúne uma boa amostra da diversificada produção de Casais Monteiro, baseada numa peculiar concepção de crítica literária, segundo a qual "interpretação" (sujeita a erros) não deve ser confundida com "explicação" (pretensamente infalível), e ele se recusou a subordinar a crítica à teoria ou à história. Para Casais, o crítico lida com a "literatura viva" e não com o "frio raciocínio": "O crítico que traça antecipadamente a figura ideal da obra que se prepara para ler poderá falar de tudo, mas só por milagre falará realmente de tal obra". Sempre combativo, não se furtou a polemizar com críticos brasileiros, como Sérgio Milliet e Afrânio Coutinho, e não hesitou em atacar o Concretismo, de que foi um ferrenho opositor: "É como se, para resolver o problema da falta d’água (Casais se refere à "crise do verso", preconizada pelos concretos), decidíssemos tomar banho em pedra ou beber areia". A coletânea reúne ainda textos sobre cinema e teatro, boa parte da colaboração para o jornal antissalazarista Portugal Democrático, publicado em São Paulo, e uma boa mostra da correspondência que trocou com escritores brasileiros. Seus poemas (que ocupam apenas 17 das 346 páginas da antologia) tinham voltado a circular em Portugal em 1969, com a edição das Poesias Completas, reeditadas em 1993. Por isso, em seu país de origem, Casais é lembrado principalmente como poeta. Não assim entre nós: aqui, sua presença marcante, por motivos de circunstância, é mais a do crítico e do teórico. Mas sua poesia, sobretudo a partir de Noite Aberta aos Quatro Ventos (1943), com destaque para Voo sem Pássaro Dentro (1954) e O Estrangeiro Definitivo (1969), também merece ser lembrada. CASAIS MONTEIRO: UMA ANTOLOGIA Organização: Rui Moreira LeiteEditora: Unesp(346 págs., R$ 59)CARLOS FELIPE MOISÉS É POETA, TRADUTOR E CRÍTICO LITERÁRIO, AUTOR DE NOITE NULA (NANKIN EDITORIAL) E POESIA & UTOPIA (ESCRITURAS), ENTRE OUTROS LIVROS  

Carlos Felipe Moisés

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